Publicado em: sáb, set 27th, 2014

Folha: Nosso Sol tem irmã destrutiva, afirma cientista

Nota SS: Essa notícia é antiga, foi publicado na Folha de São Paulo em 2003 (há mais de 10 anos), porém ainda não tínhamos no acervo do nosso site.

sistema-solar-binario

Fonte: Google imagens

SALVADOR NOGUEIRA
da Folha de S.Paulo

Os astrônomos podem até discutir sobre quantos planetas há no Sistema Solar. Mas a contagem de estrelas sempre pareceu consenso: uma só. Basta olhar para o céu durante o dia para vê-la _o Sol, no centro do sistema planetário. Pois bem. Richard Muller jura que são duas.

Desde 1984, esse astrônomo do Laboratório Nacional Berkeley, na Califórnia, Estados Unidos, defende que o Sol é uma estrela binária. Sua companheira seria uma discreta anã vermelha, girando em torno dele numa órbita bem oval, com largura máxima de 1,5 ano-luz (um ano-luz é a distância que um raio de luz percorre no período de um ano).

Estrelas binárias ou até mesmo trinárias, ou seja, que têm uma ou duas outras estrelas dançando ao seu redor, existem em grandes quantidades no Universo. Mas não com tamanha distância entre elas. “Eu acho que esse é um viés de observação”, justifica Muller. “Estrelas muito distantes comumente não são reconhecidas como um par.”

A inspiração para a idéia de que o Sol tem uma estrela companheira veio de episódios bem terrestres _as extinções em massa. Alguns cientistas já notaram que as épocas dessas grandes catástrofes são estranhamente separadas por um intervalo regular de aproximadamente 26 milhões de anos.

E, em pelo menos dois casos (na grande extinção que permitiu a ascensão dos dinossauros, no final do Período Permiano, há 235 milhões de anos, e na que acabou com os lagartões, no fim do Cretáceo, há 65 milhões de anos), essas ocorrências estiveram ligadas a grandes impactos de bólidos contra a superfície da Terra.

Muller acredita que cada um desses episódios cataclísmicos corresponde a uma reaproximação dessa anã vermelha do Sistema Solar, que ele apropriadamente chamou de Nêmesis _deusa grega da indignação e da retribuição por boa sorte não merecida.

A cada 26 milhões de anos, a anã passaria raspando pela nuvem de Oort, um verdadeiro depósito de cometas localizado na região externa do sistema, e atiraria uma porção desses astros na direção do Sol, causando uma chuva de megapedregulhos nos planetas.

Até o próprio Muller confessa que sua idéia é difícil de engolir. “Eu tentei muito inventar outras teorias que explicassem os dados, e eu examinei cuidadosamente as tentativas alheias”, ele conta. “No momento, eu não conheço nenhuma solução, exceto Nêmesis.”

Dado que há tantas estrelas binárias por aí, a idéia de que o Sol também faça parte de um sistema duplo não é tão maluca assim. Mas muitos cientistas acham que uma órbita tão grande quanto a de Nêmesis não seria estável o suficiente para manter a estrela por aí desde a formação do Sol, há 5 bilhões de anos, até agora.

Para Muller, os cálculos confirmam que a órbita é razoavelmente estável. “Note que a teoria prevê que a periodicidade não deve ser precisa”, diz. “Perturbações de outras estrelas não seriam capazes de interromper a órbita, mas seriam suficientes para causar uma suave _de uns poucos milhões de anos_ alteração no intervalo entre extinções.”

Paradeiro desconhecidoContudo, a idéia tem outro problema, de natureza menos sutil: se Nêmesis de fato existe, onde está, que ninguém achou até agora?

Uma das idéias para comprovar a existência dessa companheira solar seria observar o próprio Sol, procurando traços da influência gravitacional da anã em seu comportamento, como “puxões” que acelerassem a estrela em sua órbita. “Eu estudei isso com muito cuidado”, diz Muller.

“As técnicas atuais não são sensíveis o suficiente para detectar a aceleração [do Sol] causada por Nêmesis”, diz. “Para dizer a verdade, a aceleração causada por Alfa Centauri [o sistema mais próximo, a 4 anos-luz] é maior que a [causada] por Nêmesis, porque sua massa é maior.”

Prova direta
Mesmo que a influência gravitacional de Nêmesis seja detectada, nada seria melhor do que uma observação direta. E, segundo Muller, provavelmente Nêmesis já foi achada _e ainda não identificada. “Nêmesis é, provavelmente, uma estrela anã vermelha com magnitude 7 a 12 [pouco brilhante]”, diz. “Quase todas essas estrelas foram catalogadas, mas poucas tiveram a distância medida.”

No total, há no céu cerca de 3.000 estrelas candidatas. Muller coordena atualmente um programa de observação para identificar a suposta companheira do Sol.

“Já olhamos em cerca de mil, e então nosso telescópio pediu água. Construímos um novo, mas tivemos problemas em encontrar um bom lugar _e então ficamos sem dinheiro”, conta o pesquisador. “Estou com novos projetos no horizonte, que vão fazer outras coisas além de procurar Nêmesis, então provavelmente iremos atrair mais apoio.”

E qual é o prazo de validade da teoria? “Quando virmos que não há nenhuma estrela, até a vigésima magnitude [estrelas pouco brilhantes], que esteja orbitando o Sol, então a teoria estará morta. Espero saber a resposta em uma década”, diz Muller.

Mas ele acha que Nêmesis deve ser encontrada bem antes disso. E, se não for, ele não desanima. “Se a teoria de Nêmesis estiver errada, então há alguma coisa ainda mais exótica que explica os dados, e eu não tenho a menor idéia do que pode ser. Mas deve ser empolgante _e eu quero ser o primeiro a descobri-la.”

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u8091.shtml

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